Prédio sede da Assembleia Legislativa: legislaturas marcadas pelo familismo. (Foto: JC Imagem)
Trinta anos depois do fim da ditadura
militar, a democracia brasileira está sob questão: há uma prática
democrática no exercício da política no País? Por que o Brasil não
consegue renovar os quadros políticos? Por que os partidos não têm
compromisso programático? O sistema partidário-eleitoral está na
berlinda, carcomido por vícios e deformações nas relações entre os
Poderes e entre os eleitos e eleitores. Sistema que se alimenta e se
reproduz de acordos partidários sempre sob suspeitas e governos
dependentes de bases de apoio artificiais, que sobrevivem da troca de
interesses.
O retrato não traduz, porém, apenas os
30 anos de democracia recente. É da tradição política do País. As
práticas são iguais entre as regiões. Mais enraizadas em “umas” que em
“outras”. Pernambuco é um exemplo. A tradição política vem do
“coronelismo” ao espólio familiar do poder, sendo o Legislativo o mais
representativo das castas políticas, na história republicana brasileira,
nos períodos democráticos e ditatoriais alternados.
Na Assembleia de Pernambuco os
sobrenomes se sucedem na Casa por ordem genealógica ou parentesco de
afinidade, quando não se perpetuam em mandatos por 40 a 50 anos via
reeleições. As famílias e seus sobrenomes dominam, significativamente, a
política estadual. Levantamento da atual bancada de 49 deputados do
Legislativo do Estado revela que a maior parte dos parlamentares é
composta por filhos, netos, pais, primos e esposas de ex-deputados ou de
ex-prefeitos ou prefeitos municipais.
Numa comparação com a bancada da
Assembleia de 60 anos atrás – que tinha 65 membros, eleitos em 1950 –,
constata-se que muitos dos sobrenomes já estavam lá no Parlamento como
bisavós, avós e pais de atuais deputados. Outros, até recentemente
permaneciam como legisladores. Alguns ganharam projeção no enfrentamento
à ditadura de 64. A sessão de 24 de agosto de 1954, a do dia do
suicídio de Getúlio Vargas, é bem representativa da forte presença do
familismo na política pernambucana, tradição denunciada pelos
sobrenomes.
Da bancada de 1950, sobrenomes
atravessaram as décadas seguintes como expressões políticas no Estado e
até nacionais. No dia do suicídio de Getúlio, estavam presentes no
plenário personagens como Miguel Arraes - em 1959, eleito prefeito do
Recife, e governador em 1962 –, Paulo Germano (filho de Agamenon
Magalhães), Pio Guerra, Afonso Ferraz, Antônio Heráclio, Andrade Lima
Filho, Nilo Pereira, Paulo Cavalcanti, João Teobaldo, Metódio Godói e
Constantino Maranhão.
Ausentes à sessão estiveram deputados
como Armando Monteiro Filho e Francisco Heráclio, e justificaram
ausência nomes como Osvaldo Lima Filho, Moury Fernandes, Felipe Coelho,
Lael Sampaio e Clélio Lemos. O espólio político de muitos foi herdado
pelos descendentes.
Fonte: jconline.ne10.uol.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário