O senador era líder do governo e chegou a ficar preso por 87 dias.
(Reprodução: Internet)
Por 74 votos a favor, nenhum contra e uma abstenção, o plenário do Senado cassou nesta terça-feira (10) o mandato do senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS) por quebra de decoro parlamentar.
A única abstenção foi do senador João Alberto (PMDB-MA), presidente do Conselho de Ética do Senado. Dos 81 senadores, cinco não compareceram à sessão: o próprio Delcídio
do Amaral; Eduardo Braga (PMDB-AM); Maria do Carmo Alves (DEM-SE); Rose
de Freitas (PMDB-ES); e Jader Barbalho (PMDB-PA).
O mandato de Delcidio se encerraria em 2018. Com a decisão do Senado,
ele fica inelegível por oito anos a partir do fim do mandato, ou seja,
não poderá concorrer a cargos eletivos nos próximos 11 anos. Segundo a
Secretaria Geral do Senado, Delcídio é o terceiro senador cassado na
história da instituição – os outros dois foram Demóstenes Torres e Luiz
Estevão.
Após a sessão, o senador Telmário Mota (PDT-RR) comentou que o placar
quase unânime foi um sinal para a sociedade de que o Senado "não passa a
mão na cabeça de ninguém”.
“Eu acho que foi uma via sacra porque não foi fácil chegar até aqui.
Foi uma votação dramática porque esse não é o propósito do Senado.
Agora, também não podemos conviver com uma situação dessas. Com esse
resultado, ficou patente que o senador ou o político tem que conduzir a
sua vida de acordo com aquilo que está previsto na Constituição”,
afirmou.
Questionado se achava que a cassação de Delcídio acendia um sinal
alerta entre os demais senadores investigados na Lava Jato, o senador
Randolfe Rodrigues (Rede-AC) disse que assim esperava.
"Espero que essa cassação seja, em especial, uma afirmação do Senado de
que a conduta parlamentar deve seguir as regras de decoro”, declarou.
Senador preso
Ex-líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral foi preso pela Polícia Federal (PF), em novembro do ano passado, por tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato ao oferecer
R$ 50 mil mensais à família de Nestor Cerveró para tentar convencer o
ex-diretor da Petrobras a não fechar um acordo de delação premiada com o
Ministério Público Federal (MPF).
Delcídio se tornou o primeiro senador preso durante o exercício do
mandato. Ele foi solto em fevereiro após fechar um acordo de delação
premiada com a Procuradoria Geral da República. Ele ficou 87 dias na
cadeia.
A decisão de cassar o mandato do senador do Mato Grosso do Sul deverá
ser publicada na edição desta quarta (11) do “Diário Oficial do Senado”
juntamente com um comunicado convocando o primeiro suplente de Delcídio, o empresário sul-matogrossense Pedro Chaves dos Santos (PSC-MS). O
suplente terá até 30 dias para assumir a cadeira de Delcídio.
Para que Delcídio perdesse o mandato, eram necessários, pelo menos, 41
votos favoráveis. O pedido de cassação do ex-líder do governo foi
protocolado no Conselho de Ética, em dezembro, pela Rede
Sustentabilidade e pelo PPS.
Gravações
A conversa na qual Delcídio oferece um plano de fuga para o ex-dirigente da Petrobras foi gravada por Bernardo Cerveró, filho de Nestor Cerveró. No áudio, o então líder do governo diz que
conversaria com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para que os
magistrados intercedessem em favor de Cerveró.
Na delação premiada, o senador cassado citou o nome de vários políticos de expressão nacional, entre eles a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves (MG).
Conselho de Ética
O processo de cassação de Delcídio do Amaral no Conselho de Ética se
estendeu ao longo de cinco meses. Desde que foi libertado por ordem do
Supremo, o senador se manteve afastado do Senado com consecutivas
licenças de saúde. Ele foi convidado quatro vezes a depor no colegiado
para se defender, mas, não compareceu em nenhuma delas e o conselho
desistiu de ouvi-lo.
No dia 3, o Conselho de Ética aprovou o relatório do senador Telmário
Mota (PDT-RR) que recomendava a cassação do mandato de Delcídio. Em seu
parecer, o relator defendeu que, pelo conteúdo da gravação, o senador
sul-matogrossense infringiu o decoro parlamentar e, por isso, deveria
perder o mandato.
A defesa de Delcídio, entretanto, tentou barrar a cassação alegando que
o senador não estava exercendo atividade parlamentar quando foi gravado
por Bernardo Cerveró. Os advogados do ex-líder do governo também
afirmaram que eram bravatas as promessas que Delcídio fez ao filho de
Cerveró de que iria pedir a intervenção de ministros do STF para tentar
garantir a liberdade do ex-diretor da Petrobras.
Por fim, quando perceberam que era praticamente irreversível a cassação
de Delcídio, os defensores propuseram que fosse aplicada uma pena mais
branda do que a cassação, como perda temporária do mandato ou censura.
No entanto, a proposta foi ignorada pelos senadores.
Delcídio no Senado
A única vez em que Delcídio compareceu no Senado para se defender foi
nesta segunda-feira (9). Ele compareceu à sessão da Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) convocada para analisar a legalidade do
relatório aprovado no Conselho de Ética.
Diante dos colegas de Senado, Delcídio pediu "desculpas" pelo constrangimento que causou aos pares e afirmou que é "acusado de obstrução de Justiça", mas que isso não é um crime grave.
"Eu não roubei, não desviei dinheiro, não tenho conta no exterior.
Estou sendo acusado de quê? De obstrução de Justiça", enfatizou.
Na ocasião, a análise do processo na CCJ chegou a ser adiada depois que
os integrantres da comissão aprovaram, por maioria, um requerimento do
senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) que solicitava ao Supremo informações
adicionais sobre o caso.
Renan Calheiros, porém, barrou a manobra que daria mais tempo a
Delcídio. O presidente do Senado condicionou a votação do processo de
cassação de Delcídio para pautar para esta quarta-feira (11) a sessão
que poderá autorizar a instauração do processo de impeachment de Dilma.
Com o ultimato, os integrantes da CCJ Aceitaram apreciar no plenário a legalidade do relatório do Conselho de Ética, liberando o processo para ser votado nesta terça pelos senadores.
Político com perfil técnico
Delcídio do Amaral Gomez, 61 anos, é formado em engenharia elétrica. No
começo dos anos 90, ele atuou como diretor da petroleira Shell na
Holanda. O ex-líder do governo também foi ministro interino de Minas e
Energia no governo do ex-presidente Itamar Franco.
Delcídio atuou ainda como diretor da Eletrosul, empresa pública que
cuida do sistema elétrico na Região Sul. Ele também chegou a participar
do Conselho de Administração da mineradora Vale.
Depois de transitar em cargos de alto escalão no setor de energia,
Delcídio se elegeu, em 2002, senador pelo Mato Grosso do Sul. Em seu
primeiro mandato, ele ganhou notoriedade nacional como presidente da CPI
dos Correios, que investigou o esquema de compra de votos parlamentares
em troca de apoio ao governo Lula no Congresso, o chamado mensalão do
PT.
Em 2006, Delcídio concorreu a governador de Mato Grosso do Sul, mas
acabou derrotado no primeiro turno. Quatro anos mais tarde, ele se
reelegeu para o Senado.
Suplente
Com a cassação de Delcídio, o primeiro suplente do senador, o
empresário Pedro Chaves dos Santos (PSC-MS), será convocado a ocupar a
vaga aberta no Senado. O suplente terá até 30 dias para assumir a
cadeira do ex-líder do governo.
A assessoria de Chaves dos Santos informou ao G1 que ele tem a intenção de assumir o mandato que se encerra em 2018.
Formado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
Pedro Chaves dos Santos é empresário do ramo da educação em Mato Grosso
do Sul. Ele fundou um grupo de faculdades particulares no estado, entre
as quais a Universidade para o Desenvolvimento do Estado e Região do
Pantanal (Uniderp).
O suplente de Delcídio vendeu parte das escolas de ensino superior que
possui ao grupo Anhanguera em uma transação milionária. À Justiça
Eleitoral, ele declarou ser dono de um patrimônio de mais de R$ 68
milhões.
Pedro Chaves dos Santos possui vínculo familiar com o pecuarista José
Carlos Bumlai, amigo de Lula que está preso em regime domiciliar por
suspeita de envolvimento no esquema de corrupção que atuava na
Petrobras. Uma filha do suplente de Delcídio é casada com um dos filhos
do pecuarista. Bumlai é réu na Lava Jato por corrupção passiva, gestão
fraudulenta e lavagem de dinheiro.
Fonte: g1.globo.com
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